— O Arquiteto, Matrix Reloaded (2003)
O que acontece quando a cópia não apenas substitui o original, mas quando o próprio original nunca existiu? Essa é uma pergunta importante para entender a lógica no que se refere a autenticidade e as redes sociais. A Hiper-realidade é um conceito em que a simulação substituiu o mundo real, a simulação do mundo e todas as outras instâncias se tornam o atual real, sem a mesma servir como molde. Na hiper-realidade, não estamos mais lidando com cópias imperfeitas da realidade, mas com modelos mais perfeitos, mais intensos, mais desejáveis que o próprio real.
Eu penso que estamos passando por processo de transição no que se refere a Hiper-realidade, ainda estamos em uma "pré Hiper-realidade". Antes de prosseguir, é importante explicar dois conceitos, a Simulação e Simulacro.
Simulação é a representação ou imitação de algo real. É quando criamos uma cópia que ainda mantém relação com um original existente - a imagem ainda reflete ou se refere a uma realidade subjacente.
Simulacro, por outro lado, é uma cópia sem original. É a representação que precede e determina o real, que não tem mais relação com qualquer realidade de base. O simulacro não imita nada - ele se torna sua própria realidade autônoma.
A noção de simulacro pode ser vista nas redes sociais, principalmente o Instagram onde se lida principalmente com a imagem. Toda a imagem é curada antes de ser postada, o melhor é mostrado para o público - a pessoa real ainda existe, mas apresenta uma simulação de si mesma operando através de fragmentos selecionados. Mesmo as pessoas comuns já operam dentro dessa lógica de forma não intencional. A melhor luz, o melhor ângulo, os pedaços mais palatáveis da vida - mas ainda mantém um certo senso de autenticidade, apesar da curadoria da imagem.
No caso dos grandes influenciadores, a pessoa real não existe mais. É uma simulação da pessoa operando um simulacro. Não é a Pessoa + a Simulação da vida, mas um simulacro + Simulação. A pessoa real não existe mais na equação, é uma "pessoa oca" imitando uma vida que também não é real.
Mas e se tiver algo mais além? E tem, pensando nisso, eu resolvi testar algo. No OnlyFans, onde a imagem é hipercurada, onde a imagem é a mais "perfeita" possível mostrada para gerar e reter assinantes. Além das coisas mais óbvias que na maioria acontece lá, uma coisa me chamou a atenção: a GFE (Girlfriend Experience).
A GFE não vende apenas conteúdo visual - vende a simulação de um relacionamento. Mensagens "personalizadas", conversas diárias, atenção "exclusiva", a ilusão de intimidade emocional. O produto não é a imagem do corpo, mas a imagem da relação.
Eu "vesti a máscara" do consumidor médio e assinei algumas. A experiência deveria durar 1 mês, mas resolvi terminar na segunda semana. Primeiro, por não conseguir me integrar completamente ao "jogo" - um tédio absurdo. Segundo, por perceber logo o que estava acontecendo: seria inútil continuar por mais tempo.
O experimento se basearia em mensurar o que seria autêntico, o que a autenticidade significaria naquele meio. O foco seria nas mensagens privadas e no que era oferecido ali - não no conteúdo visual público, mas na construção da "relação".
O mais óbvio de acontecer seria o clássico scam: a relação era puramente comercial. A cada 5 mensagens, 1 era oferecendo um "conteúdo adicional" pago, vendido como se aquilo - depois de algumas trocas de mensagens avulsas e rasas - fosse uma forma de intimidade, algo nunca mostrado a ninguém.
Outras seguiram o papel determinado: conversas normais e estranhamente engajantes. A partir do segundo e terceiro dia, fui percebendo que as mensagens seguiam um padrão - eram bastante detalhadas e ordenadas, demonstravam grande interesse por diferentes assuntos aleatórios e um entendimento suspeitosamente profundo deles. Os indícios de IA eram evidentes. Testei com vários assuntos mais "complexos" e o resultado foi o mesmo: respostas elaboradas demais, sem as falhas e lacunas de conhecimento que uma pessoa real teria. Muitas delas usam agências e chatters para responder mensagens e dar a ilusão de estar 100% online - nesses casos, o fator humano é completamente inexistente. Foi isso que me fez formular algo.
Como havia dito sobre as redes e influenciadores, onde formulei que seria Simulação + Simulacro, neste caso seria a equação Simulacro + Simulacro - eu defino como uma "câmara de eco". Não que eu esteja conversando com a modelo ou a simulação dela, mas estou conversando com um simulacro dela moldado através de cada mensagem minha, ou seja, estou falando comigo mesmo. Os interesses que tenho magicamente são interessantes para ela também. É você interagindo com um espelho algorítmico de si mesmo, vestido com a imagem dela. Ela (ou o gerenciamento dela) simplesmente reflete de volta seus próprios desejos, interesses, fantasias - criando a ilusão perfeita de compatibilidade e conexão.
Infelizmente não tenho acesso a quem regularmente usa esses serviços, mas a questão que fica é: o consumidor acredita genuinamente no que é escrito? Ou existe uma "má-fé consciente" - ele não acredita inteiramente, mas decide acreditar para poder obter esses efeitos psicológicos?
E talvez a pergunta mais perturbadora: se o simulacro é indistinguível do real e produz os mesmos efeitos emocionais e psicológicos, qual a diferença prática? O simulacro não seria, nesse ponto, funcionalmente equivalente ao real?
Eu penso qual seria o próximo passo depois da Hiper-realidade. Minha hipótese seria a "hiper-vida", mas não é algo bem definido - pode seguir duas direções:
1 - O digital invade completamente o real. As noções de imagem e a lógica das redes se tornariam a norma no dia a dia. Não que já não exista uma noção de como nos apresentamos ao mundo, mas dessa vez seria um policiamento muito maior - a imagem deveria ser 100% otimizada, o que fecharia o espaço para o alternativo e algo mais sincero. A curadoria deixaria de ser opcional para se tornar obrigatória.
2 - Seria o inverso: o real seria completamente substituído pelo digital. Como foi proposto pelo metaverso, a vida seria inteiramente transferida para simulações e simulacros. Se posso ter versões melhoradas e perfeitas de qualquer coisa, por que precisaria sair e ver pessoalmente? Por que encontrar imperfeições e obstáculos pelo caminho? O simulacro não apenas substitui o real - ele o torna desnecessário, obsoleto.